quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Trás-os-Montes (António Reis e Margarida Cordeiro, Portugal, 1976)


Quanto mais vejo do pouco que ainda conheço do cinema português, mais se atiça minha curiosidade sobre a filmografia desse país. Não conhecia nada da obra de António Reis, mas a mostra “O Cinema de Pedro Costa”, que está acontecendo atualmente aqui em Brasília no CCBB, tem uma belíssima seção denominada “Carta Branca a Pedro Costa”, em que o próprio cineasta escolheu 4 filmes para serem exibidos (além deste e do mais manjado porém belíssimo “Gente da Sicília”, de Straub e Huillet, estão presentes “Beauty #2”, do Andy Warhol, e “Número Zero”, do Jean Eustache). Confiado na credencial de Costa e nas outras belas escolhas que fez para a mostra, fui assistir “Trás-os-Montes” com altíssima expectativa, e, de fato, este terminou por se revelar um belíssimo filme. Está aqui o mesmo olhar maravilhado diante do que se filma, o que me lembrou um pouco “Aquele Querido Mês de Agosto” ou os filmes do Apichatpong Weerasethakul ou ainda o próprio “Gente da Sicília”, apesar de cada um dos cineastas serem bastante diferentes. Reis e Cordeiro fazem aqui um registro pictórico-geográfico-poético da província de Trás-os-Montes, filmando indivíduos de diversas aldeias e vilarejos da região, sobretudo crianças, mulheres e velhos. Perpassa todo o filme o sentimento da ausência, em especial a dos chefes de família, como o pai da menina, emigrado para a Argentina e a quem a filha só conhece já com uns 12 anos, em um encontro rapidíssimo (a despedida dura bastante tempo, num plano longo e belíssimo, que lembra um pouco o plano de Claudette Colbert se despedindo de Henry Fonda, que parte com a tropa, em “Drums Along the Mohawk”) ou o marido emigrado para a Alemanha que envia uma carta à família. O olhar maravilhado se irmana ao olhar das crianças do início do filme, fascinadas com a amplidão dos espaços montanhosos, com o casarão cheio de relíquias. A quem se interessar pela obra de Reis, há um belo blog dedicado a sua obra, com uma puta fortuna crítica de todos os seus filmes, além de diversas entrevistas, fotos e textos do próprio cineasta.

"Trás-os-Montes" e "Drums Along the Mohawk"

3 comentários:

  1. Sentiu minha falta lá no cinema?

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  2. Engraçado ver vc tão empolgado com cinema português Rafa. Eu já tentei duas vezes com o Manoel de Oliveira e ainda não consegui me empolgar muito. Vi o ....EEstranho Caso de Angélica e achei completamente bizarro. O cara faz umas tomadas maravilhosas e tem uma fotografia linda (não discuto) mas as atuações eram inacreditavelmente artificiais. E o filme tem umas horas... ridículas. Foi até chato porque dava vontade de rir (e ficava aquele pensamento de que português e meio idiota na cabeça). Foda. O outro que assisti foi na epoca que teve uma mostra dele em Bh e também foi terrivel....
    Sei lá talvez eu ainda tenha que achar o fia da meada do sujeito.
    E isso meio que me deixa resistente a cinema de portugal. Pedro Costa é legal mais não me atrai tanto.
    Mas fica armazenada a sugestão! Flou.

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  3. Pô, Cesar, como assim? Talvez seja necessário um pouco de paciência pra pegar no tranco com o Manoel de Oliveira, mas eu adoro o pouco que já vi dele (em especial Viagem ao Princípio do Mundo, Inquietude, Um Filme Falado, Espelho Mágico). Quanto às atuações artificiais, a ideia é essa mesmo, quebrar com o padrão "naturalista" de interpretação. Não é precariedade dos atores, é opção do diretor mesmo. Atores consagradíssimos como Marcello Mastroianni, Michel Piccoli e Catherine Deneuve também têm atuações artificais em seus filmes. Os filmes do Straub-Huillet tb têm atuações ultra artificiais (talvez até mais que em Oliveira) e são filmes belíssimos. Não é uma regra do bom cinema ter atuações críveis, no padrão que a gente espera. Liberte-se do padrão hollywoodiano hehehe.

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