segunda-feira, 27 de setembro de 2010
The Kentucky Fried Movie (John Landis, Estados Unidos, 1977)
O filme marca a estreia cinematográfica, no roteiro e como atores em pequenas pontas, da trinca Zucker, Abrahams & Zucker (ou ZAZ: David Zucker, Jim Abrahams e Jerry Zucker), responsável mais tarde, como trinca ou cada um individualmente, por clássicos como “Apertem os Cintos... O Piloto Sumiu” (1980), “Por Favor, Matem a Minha Mulher” (1984), “Corra que a Polícia Vem Aí” (1988) e “Top Gang” (1991). O segundo filme de Landis é um filme de esquetes, semelhante a “Amazon Women on the Moon” (co-dirigido por vários diretores como o próprio Landis e Joe Dante em 1987) e na linha de programas televisivos como Saturday Night Live ou os brasileiros TV Pirata e Casseta & Planeta. Como costuma acontecer em produções do tipo, o resultado é meio irregular e alguns esquetes são bem melhores que outros. Curiosamente, um dos segmentos mais fracos é um mais comprido, que se trata de uma paródia (especialidade da trinca ZAZ) de filmes do Bruce Lee. Quando o humor anárquico e politicamente incorreto de Landis funciona, porém, é bem poderoso, como costuma ser nos demais filmes do diretor.
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Ano: 1977,
David Zucker,
Festival: Comédia hollywoodiana 70’s-2000’s,
Gênero: Comédia,
Jerry Zucker,
Jim Abrahams,
John Landis,
País: Estados Unidos
quinta-feira, 23 de setembro de 2010
Trás-os-Montes (António Reis e Margarida Cordeiro, Portugal, 1976)
Quanto mais vejo do pouco que ainda conheço do cinema português, mais se atiça minha curiosidade sobre a filmografia desse país. Não conhecia nada da obra de António Reis, mas a mostra “O Cinema de Pedro Costa”, que está acontecendo atualmente aqui em Brasília no CCBB, tem uma belíssima seção denominada “Carta Branca a Pedro Costa”, em que o próprio cineasta escolheu 4 filmes para serem exibidos (além deste e do mais manjado porém belíssimo “Gente da Sicília”, de Straub e Huillet, estão presentes “Beauty #2”, do Andy Warhol, e “Número Zero”, do Jean Eustache). Confiado na credencial de Costa e nas outras belas escolhas que fez para a mostra, fui assistir “Trás-os-Montes” com altíssima expectativa, e, de fato, este terminou por se revelar um belíssimo filme. Está aqui o mesmo olhar maravilhado diante do que se filma, o que me lembrou um pouco “Aquele Querido Mês de Agosto” ou os filmes do Apichatpong Weerasethakul ou ainda o próprio “Gente da Sicília”, apesar de cada um dos cineastas serem bastante diferentes. Reis e Cordeiro fazem aqui um registro pictórico-geográfico-poético da província de Trás-os-Montes, filmando indivíduos de diversas aldeias e vilarejos da região, sobretudo crianças, mulheres e velhos. Perpassa todo o filme o sentimento da ausência, em especial a dos chefes de família, como o pai da menina, emigrado para a Argentina e a quem a filha só conhece já com uns 12 anos, em um encontro rapidíssimo (a despedida dura bastante tempo, num plano longo e belíssimo, que lembra um pouco o plano de Claudette Colbert se despedindo de Henry Fonda, que parte com a tropa, em “Drums Along the Mohawk”) ou o marido emigrado para a Alemanha que envia uma carta à família. O olhar maravilhado se irmana ao olhar das crianças do início do filme, fascinadas com a amplidão dos espaços montanhosos, com o casarão cheio de relíquias. A quem se interessar pela obra de Reis, há um belo blog dedicado a sua obra, com uma puta fortuna crítica de todos os seus filmes, além de diversas entrevistas, fotos e textos do próprio cineasta.
"Trás-os-Montes" e "Drums Along the Mohawk"
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Ano: 1976,
António Reis,
Gênero: Documentário,
Margarida Cordeiro,
País: Portugal,
Pedro Costa
quarta-feira, 22 de setembro de 2010
Aquele Querido Mês de Agosto (Miguel Gomes, Portugal / França, 2008)
O cinema português tem se mostrado ultimamente bem instigante. Este é um filme cuja chave é o olhar maravilhado diante do mundo e é esse olhar que dará o tom de toda sua duração. No início o filme aparenta não ter um objeto específico. Vemos diversas sequências de bandas de pequenos vilarejos da região de Arganil, em Portugal, tocando músicas populares, além de entrevistas com indivíduos desses vilarejos. Aos poucos, um enredo começa a tomar forma, com uma equipe cinematográfica (interpretada pela própria equipe do filme) que está rodando (ou está para rodar) um filme de ficção ali naquela região. Uma sequência chave, mais pro meio do filme, mostra uma discussão entre o produtor e o diretor em torno das filmagens. O produtor reclama que não se está seguindo o roteiro, e o diretor reclama da falta de recursos. Na segunda metade do filme vemos o filme de ficção que supostamente era para ser rodado desde o início. Ali vemos voltar diversos dos motivos (pessoas, falas, músicas, situações) que já havíamos visto na primeira parte, documental. Também nessa parte ficcional, a chave é o olhar maravilhado. Há uma paixão pelos ambientes retratados, pelas pessoas, pelas músicas bregas tocadas o tempo todo. Lendo um pouco sobre a produção do filme, fiquei sabendo que a equipe rodou a primeira parte em agosto de um ano e voltou em agosto do ano seguinte, para rodar a segunda parte. O simbolismo desse mês parece ser muito forte em Portugal, em particular nesses vilarejos. Agosto é o mês em que os jovens, que saem dos vilarejos para as cidades, voltam para visitar seus familiares. É também o mês em que, devido a esse retorno, abundam as festas nos vilarejos, retratadas em profusão. A sequência dos créditos finais é engraçadíssima. O diretor novamente começa uma discussão, dessa vez com o responsável pela captação de som, reclamando que os sons captados não correspondem ao que a câmera enquadra, ao que o técnico de som argumenta que os sons registrados são fruto de suas opções pessoais, que devem ser respeitadas. Diversos outros membros da equipe entram na discussão enquanto cada um deles é apresentado nominalmente nos créditos à medida que participam da discussão. Ao fim, mais uma surpresa: começa a tocar “Tudo Passará”, do Nelson Ned. Sensacional. Definitivamente, um filme a se rever.
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Ano: 2008,
Gênero: Documentário,
Gênero: Drama,
Gênero: Musical,
Miguel Gomes,
País: França,
País: Portugal
terça-feira, 21 de setembro de 2010
JCVD (Mabrouk El Mechri, Bélgica / Luxemburgo / França, 2008)
Dando continuidade ao meu mini-festival temático sobre documentários-retratos a respeito de esportistas, abri um parêntese com este filme que não é um documentário, nem é sobre um esportista. Achei, no entanto, que este filme de ficção em que Jean-Claude Van Damme faz o papel de si próprio como um ator em fim de carreira voltando à Bélgica, sua terra natal onde ainda é idolatrado, poderia fazer um diálogo interessante com “Tyson”, uma vez que tanto Mike Tyson quanto Van Damme são dois grandes ícones da luta do fim dos anos 80 e começo dos 90, ainda que o primeiro o seja na vida real e o segundo no universo da ficção. De fato, o diálogo entre os dois filmes se revelou bastante interessante. Enquanto em “Tyson”, o boxeador se expõe numa parcialidade bem cara-de-pau no relato sobre sua vida e carreira, aqui Van Damme se expõe numa auto-zoação impressionante. No filme, o ator está em uma disputa judicial pela guarda de sua filha, que vive nos Estados Unidos e se recusa a ficar com o pai por não querer mais ser alvo de piadas entre os colegas. Sobra também para Steven Seagal, que rouba um papel de Van Damme por prometer cortar seu infame rabo-de-cavalo. Em uma sequência sensacional, Van Damme está em meio a um assalto a banco em que é confundido pela polícia como o responsável pelo roubo e é repentinamente suspenso do espaço-tempo da ação para conversar diretamente com a câmera sobre sua desilusão com Hollywood. O filme tem algumas fraquezas, como o desejo de parecer moderninho demais (alguns tiques “pulp-fictionescos” como a repetição de sequências sob diferentes ângulos e o vai-e-vem temporal são bastante injustificáveis e poderiam ser descartados; a fotografia de um verde-prata meio “Ensaio sobre a Cegueira” é bem feia), mas o resultado final é um bocado divertido.
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Ano: 2008,
Festival: Documentários-retratos sobre esportistas,
Gênero: Comédia,
Gênero: Policial,
Jean-Claude Van Damme,
Mabrouk El Mechri,
País: Bélgica,
País: França,
País: Luxemburgo
segunda-feira, 20 de setembro de 2010
(Parênteses literários: Ernesto Sabato)
Sabato, usando outras palavras para falar da queda do homem depois de comer o fruto proibido da árvore do conhecimento do bem e do mal, e do papel da arte na tentativa de reconexão com o paraíso perdido:
“E naquele reduto solitário me punha a escrever contos. Agora percebo que escrevia cada vez que era infeliz, que me sentia só ou desconectado do mundo em que me coube nascer. E penso se não será sempre assim, que a arte do nosso tempo, essa arte tensa e escandalosa, nasça invariavelmente de nosso desajuste, de nossa ansiedade e nossa insatisfação. Uma espécie de tentativa de reconciliação com o universo dessa raça de criaturas frágeis, inquietas e angustiadas que são os seres humanos. Pois os animais não precisam dela: basta-lhes viver. Porque sua existência se desliza harmoniosamente com as necessidades atávicas. E para o pássaro bastam algumas sementinhas ou minhocas, uma árvore para construir seu ninho, grandes espaços para voar; e sua vida transcorre desde seu nascimento até sua morte em um venturoso ritmo que não é nunca perturbado nem pelo desespero metafísico, nem pela loucura. Já o homem, ao levantar-se sobre as duas patas traseiras e ao transformar em um machado a primeira pedra cortante, instituiu as bases de sua grandeza mas também as origens de sua angústia; porque com suas mãos e com os instrumentos feitos com suas mãos erigiria essa construção tão potente e estranha que se chama cultura e iniciaria assim sua grande desconexão, já que terá deixado de ser um simples animal mas não terá chegado a ser o deus que seu espírito lhe sugeria. Será esse ser dual e desgraçado que se move e vive entre a terra dos animais e o céu de seus deuses, que terá perdido o paraíso terrestre de sua inocência e não terá conquistado o paraíso celeste de sua redenção. Esse ser dolorido e doente do espírito que se perguntará, pela primeira vez, sobre o porquê de sua existência. E assim as mãos, e em seguida aquele machado, aquele fogo, e em seguida a ciência e a técnica terão ido cavando cada dia mais o abismo que o separa de sua raça originária e de sua felicidade zoológica. E a cidade será finalmente a última etapa de sua louca corrida, a expressão máxima de seu orgulho e a máxima forma de sua alienação. E então seres descontentes, um pouco cegos e um pouco como enlouquecidos, tentam recuperar às cegas aquela harmonia perdida com o mistério e o sangue, pintando ou escrevendo uma realidade diferente da que desgraçadamente os rodeia, uma realidade muitas vezes de aparência fantástica e demente, mas que, coisa curiosa, acaba sendo finalmente mais profunda e verdadeira que a cotidiana. E assim, sonhando um pouco por todos, esses seres frágeis conseguem erguer-se sobre sua desventura individual e transformam-se em intérpretes e até em salvadores (dolorosos) do destino coletivo”.
Ernesto Sabato. Sobre Héroes y Tumbas (1961). Buenos Aires: La Nación, 2001, p. 471-472 (minha tradução)
quarta-feira, 15 de setembro de 2010
Mary Stuart, Rainha da Escócia (Mary of Scotland, John Ford, Estados Unidos, 1936)
Fruto de um breve período aparentemente menos inspirado de Ford (pelo menos é o que Tag Gallagher afirma em seu livro), este filme não tem a força da maioria de seus outros trabalhos, mas mesmo assim não deixa de ser um grande filme. Pouco se vê de sua assinatura aqui, talvez por conta dos conflitos que dizem ter existido entre Ford e Katharine Hepburn. Me parece que este filme acaba por ser mais um star vehicle da atriz que um filme autoral de Ford (mesmo que os filmes de bons autores hollywoodianos do período e de Ford em particular costume ser uma mistura das duas coisas). Chama atenção a atmosfera opressora do castelo em que vive a protagonista, reminiscência das fortes influências do expressionismo alemão na obra do diretor, principalmente nos filmes realizados entre 1928 e 1935 (“Four Sons”, “Hangman’s House”, “Arrowsmith”, “The Informer”). Destaca-se ainda, como sempre, a presença magnética de John Carradine em papel menor, como o braço direito da rainha.
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Ano: 1936,
Gênero: Histórico,
John Ford,
Katharine Hepburn,
País: Estados Unidos
terça-feira, 14 de setembro de 2010
Schlock (John Landis, Estados Unidos, 1973)
Primeiro filme de Landis, "Schlock” está mais próximo dos filmes trash da Troma (produtora que realizou filmes como a série “Toxic Avenger” e “Cannibal! The Musical”) que para os filmes posteriores do diretor. É a história de um macaco (o “elo perdido”) serial killer que deixa cascas de banana nas cenas dos crimes e se apaixona por uma garota, em referência a “King Kong”. No entanto, já estão aqui algumas características típicas de Landis, como o acúmulo de situações cômicas que praticamente prescindem de um enredo. Há situações hilárias e grotescas, como a da emissora de TV que promove um concurso para que os telespectadores adivinhem o número de pessoas mortas que corresponde aos pedaços de corpos esquartejados reunidos em sacos pela polícia. No momento em que o repórter anuncia o concurso, um braço em um dos sacos começa a mexer e alguém da equipe da TV dá um chute para ele parar. Landis faz o papel de Schlock, o macaco, em uma fantasia bem fuleira, tipo Monga, a Mulher-Gorila.
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