segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Estupro (José Mojica Marins, Brasil, 1979)


Filme menor de Mojica, este é um exemplo do quanto seus filmes que não são de terror tendem a ter muito menos força que os do gênero em que o diretor é especialista. Não há aqui a inventividade visual dos filmes com o Zé do Caixão, como a brilhante sequência do inferno de gelo em “Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver” (1967). Resta apenas um filme exploitation com alguns momentos de diversão (os personagens interpretados pelo próprio Mojica são sempre sensacionais em sua canastrice) e um enredo humorístico um pouco óbvio, mas que ainda assim proporciona certa diversão.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Independencia (Raya Martin, França / Filipinas / Alemanha / Holanda, 2009)


“Independencia” é parte de um impressionante projeto de Raya Martin que pretende documentar a história das Filipinas, particularmente os três períodos de dominação / colonização pelos quais o país passou. O anterior “Um Pequeno Filme Sobre o Índio Nacional - ou a Prolongada Agonia dos Filipinos” (“Maicling Pelicula Nañg Ysañg Indio Nacional - O Ang Mahabang Kalungkutan ng Katagalugan”, 2005) tratava da colonização espanhola e da Revolução Filipina de 1896. Para tanto, Martin utilizava um instrumental do cinema mudo, como se almejasse recriar um filme que tivesse sido realizado naquele período. O resultado é bem instigante, para além da mera proeza ou ousadia de linguagem. Neste “Independencia", o diretor trata da dominação estadunidense do começo do século XX até 1946. Semelhantemente ao filme anterior, Martin utiliza elementos da linguagem cinematográfica hollywoodiana do início do cinema sonoro dos anos 30 / 40: filmagem em estúdio, cenários pintados, forte maquiagem, iluminação artificial, som dublado. O resultado pode não ser tão impactante quanto o filme anterior (impacto que se dá, em parte, pela novidade da proposta, amenizada aqui depois de já visto o primeiro), mas este é também um filme muito bom. A artificialidade do dispositivo cria um ambiente irreal, quase onírico, que se choca com a brutalidade do que vivem os personagens. O diretor afirmou em uma entrevista concedida à cinema-scope que o cinema filipino carece de um arquivo, pois grande parte dos filmes realizados no país antes da II Guerra Mundial foi destruído, restando apenas quatro filmes muito mal conservados. Parece, então, que parte do propósito de Martin é reconstruir hipoteticamente parte dessa filmografia. O diretor ainda pretende realizar um terceiro filme, dessa vez sobre a ocupação japonesa durante a II Guerra Mundial.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Tyson (James Toback, Estados Unidos, 2008)


Ao contrário do que faz Kusturica no filme sobre Maradona, aqui Toback dá total espaço para a fabulação de Tyson. A vida do boxeador é contada toda a partir de seu prisma, num formato de “cabeça falante” que aqui funciona surpreendentemente bem, uma vez que a história que Mike Tyson constrói em torno de si é fantástica. No seu modo de contá-la, a história é descaradamente parcial, não há outros lados, e Tyson se pinta grande parte do tempo como vítima de si próprio, de sua juventude e despreparo para lidar com a fama. Sua voz quase fanha e sua língua presa contrastam com a dureza de seu rosto tatuado e nos trazem para mais perto da pessoa do boxeador, gerando certa empatia. Complementam o filme algumas inserções de material de arquivo de TV, que funcionam muito bem, principalmente os abundantes registros das lutas.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Maradona by Kusturica (Emir Kusturica, Espanha / França, 2008)


A sequência de abertura do filme é sintomática. Emir Kusturica com uma guitarra, num show de sua banda em Buenos Aires. Alguém diz ao microfone: "Senhoras e senhores, na guitarra, señor Diego Armando Maradona do mundo do cinema!” Durante todo o resto do documentário, irrita a clara preocupação de Kusturica em falar mais de si mesmo, dos seus filmes, de sua genialidade, do que de Maradona, que aqui parece apenas um pretexto. Chega a ser deprimente o esforço do cineasta em se equiparar à genialidade do jogador em campo. Em alguns momentos raros, em que o diretor dá espaço a Maradona para que ele faça o que melhor sabe fazer (encenar, atuar), o filme tem bastante força. Um exemplo é a sequência em que Maradona sobe ao palco de um bar para cantar “La Mano de Dios”: “Y todo el pueblo cantó / Maradó, Maradó / Nació la mano de Dios / Maradó, Maradó”. Infelizmente são pouquíssimos momentos em que isso acontece, e a sensação é a de que Maradona precisava de um cineasta que não se tivesse em tão alta conta para dirigir um filme digno do que o jogador representa não só para o futebol, como para a cultura mundial. Mal comparando, é interessante pensar em como um cineasta péssimo como Darren Aronofsky conseguiu fazer um filme maravilhoso como “O Lutador” (The Wrestler, 2008) ao entregá-lo todo a Mickey Rourke e se reduzir à sua insignificância. Outra coisa que chama atenção no filme de Kusturica é a inacreditável falta de espaço para o futebol de Maradona. Há apenas algumas breves inserções de “melhores momentos”, com alguns dos gols mais bonitos de sua carreira, e só.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Zidane: um Retrato do Século XXI (Zidane, un Portrait du 21e Siècle, Douglas Gordon et Philippe Parreno, França / Islândia, 2006)


Dando um intervalo na saudável overdose de Ford que tenho tido ultimamente e ainda na ressaca da Copa do Mundo, resolvi ver alguns documentários-retratos sobre esportistas. Comecei por este curioso filme sobre Zidane, que não segue o padrão do documentário baseado em entrevistas. É simplesmente o registro da última partida de Zidane pelo Real Madrid, contra o Villarreal, antes de sua aposentadoria em 2006. Mas o registro do jogo também não é tradicional, optando por focar o tempo inteiro em Zidane. O que interessa, então, não é o jogo em si (às vezes é até difícil entender o que está acontecendo, e eu terminei o filme sem saber qual tinha sido o resultado da partida). O que importa é Zidane, seus tiques, suas expressões, seu corpo. O jogador é famoso por ser uma figura enigmática, e a estratégia adotada pelos realizadores ressalta ainda mais esse aspecto. O close constante em seu rosto revela que ele mantém uma expressão fechada grande parte do jogo, não comemorando ou sorrindo quando seu time marca gols. A bela trilha sonora do Mogwai ajuda ainda mais a criar a atmosfera enigmática do filme. Zidane participa efetivamente em poucos lances da partida, mas seus passes são invariavelmente decisivos. No fim, como boa amostra da figura que é Zidane, ele é expulso por se envolver numa briga a poucos minutos do término do jogo.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

John Ford 1917-1935 - Alguns destaques (parte 2/2)


Continuando:

6) Carne (Flesh, Estados Unidos, 1932)

O talento cômico de Ford é bastante evidente aqui, ao fazer um filme hilário a partir de um tema trágico. Wallace Beery faz o papel do tolo ingênuo enganado pela mulher que ama. No espírito cristão do “Bem aventurados os pobres de espírito”, Ford costuma conceder a felicidade aos ingênuos, como é o caso aqui. Ainda que o final nos pareça bem triste, não é assim que o vê o personagem de Beery.

7) Doutor Bull (Doctor Bull, Estados Unidos, 1933)

Primeiro dos 3 filmes realizados em parceria com Will Rogers, que aqui encarna o herói inadaptado a uma sociedade hipócrita, dominada pela fofoca.

8) Peregrinação (Pilgrimage, Estados Unidos, 1933)

Este filme guarda várias semelhanças com “Four Sons”. Novamente, a guerra destrói uma família. Novamente, a protagonista é uma mãe. Ford faz aqui um trabalho impressionante, de construir uma protagonista bastante odiável, mas com quem não conseguimos deixar de ter certa empatia.

9) Juiz Priest (Judge Priest, Estados Unidos, 1934)

Will Rogers encarna aqui mais um herói fordiano cujo papel primordial é reunir uma família. Destaque para os papéis cômicos de Stepin Fetchit e Francis Ford, irmão do diretor e grande inspiração no início de sua carreira.
 

10) O Delator (The Informer, Estados Unidos, 1935)

O ano de 1935 foi especialmente feliz para Ford, que realizou 3 belíssimos filmes em sequência. Aqui a influência do expressionismo alemão se faz notar de forma particularmente forte. É um filme pesado visualmente, de atmosfera carregada. O catolicismo do diretor está presente no binômio culpa / arrependimento com o qual o personagem de Victor McLaglen atravessa o filme. A sequência do julgamento realizado pelos rebeldes irlandeses lembra um pouco o julgamento do personagem de Peter Lorre realizado pelos criminosos em “M, o Vampiro de Dusseldorf” (Fritz Lang, 1931).

11) O Homem que Nunca Pecou (The Whole Town's Talking, Estados Unidos, 1935)

Interessante exercício de Ford no gênero “o homem errado” imortalizado por Hitchcock. Edward G. Robinson está magnífico no papel duplo do funcionário exemplar falsamente acusado e do assassino com o qual a polícia o confunde. Da série “Tradutores Muito Loucos e seus Títulos do Barulho”, é engraçado notar a obsessão com a palavra “pecado” de muitos títulos traduzidos de filmes clássicos, como “O Pecado de Cluny Brown” (“Cluny Brown”, Ernst Lubitsch, 1946), “Só a Mulher Peca” (“Clash by Night”, Fritz Lang, 1952), “Adorável Pecadora” (“Let’s Make Love”, George Cukor, 1960) e “Quando Duas Mulheres Pecam” (“Persona”, Ingmar Bergman, 1966).
 

12) Nas Águas do Rio (Steamboat Round the Bend, Estados Unidos, 1935)

Último filme da feliz parceria com Will Rogers. Grande parte do elenco de “Judge Priest” é repetido aqui, com destaque novamente para os papéis cômicos de Stepin Fetchit e Francis Ford. Este último ganha papel mais relevante para a trama e com mais tempo de participação, coisa rara nos outros filmes de que participa, em que costuma ter aparição episódica, ainda que normalmente com grandes efeitos cômicos. Vemos aqui e nos outros dois filmes com Rogers os primórdios dos retratos de comunidades que serão desenvolvidos belissimamente por Ford em filmes posteriores como “How Green Was My Valley”, “They Were Expendable”, a trilogia da cavalaria e “The Quiet Man”.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

John Ford 1917-1935 - Alguns destaques (parte 1/2)


Acabei de ler recentemente um livro maravilhoso sobre Ford, escrito pelo Tag Gallagher (“John Ford: The Man and His Films”), disponível em pdf no site do próprio autor. Recomendo a leitura a todos que se interessem pela filmografia do diretor. O livro traz algumas notas biográficas, mas centra-se na análise dos filmes, discorrendo sobre praticamente todos eles, a partir de 1928. Dizem que o livro do Peter Bogdanovich, “John Ford”, também é muito bom.

Seguem alguns destaques do que tenho visto dos primeiros filmes da carreira do diretor, no período de 1917 a 1935 (vou dividir em dois posts para não ficar muito gigantesco).

1) Straight Shooting (Estados Unidos, 1917)

Ao que parece, este é o filme mais antigo de Ford com cópia ainda existente e seu primeiro longa-metragem. “Straight Shooting” já valeria pelo documento histórico que é, pois é uma rara amostra dos 25 filmes que Ford fez entre 1917 e 1921 com Harry Carey como protagonista, interpretando quase sempre o mesmo personagem, Cheyenne Harry. Quase todos os filmes dessa época se perderam, restando hoje apenas, além deste, “Bucking Broadway” e “Hell Bent”, mais pedaços de “The Scarlet Drop” e de “A Gun Fightin’ Gentleman”. Aqui já se nota a figura do herói fordiano solitário, que chega para desfazer uma injustiça, reunir uma família. Diz a lenda que a versão original terminava com Cheyenne Harry sozinho, devolvendo a mocinha Molly para o mocinho Sam, algo tipicamente fordiano, mas a versão disponível hoje, supostamente reeditada pela Universal, termina com um final feliz, em que Harry fica com Molly.

2) O Cavalo de Ferro (The Iron Horse, Estados Unidos, 1924)

Grande épico sobre a construção de uma nação. Chama a atenção a visão ao mesmo tempo grandiosa e pessimista de Ford, que pinta o processo com traição, ganância inescrupulosa e muitas mortes (é dado especial destaque às várias sequências de enterros durante o filme). Aqui o talento de Ford para pintar grandes painéis sobre a história dos Estados Unidos já está bem amadurecido.

3) Os Três Homens Maus (3 Bad Men, Estados Unidos, 1926)

Aqui o típico herói fordiano é dividido em 3 “bandidos bons”, que salvam a vida da mocinha e se sacrificam para reunir uma família. Fica clara a simpatia de Ford pelos deserdados da sociedade, uma constante em sua obra.

4) Quatro Filhos (Four Sons, Estados Unidos, 1928)

Espécie de antecipação ao maravilhoso “Pilgrimage”, de 1933, aqui também temos uma mãe como figura central. O filme retrata uma família destruída pela I Guerra Mundial. Três dos filhos lutam pela Alemanha, enquanto o quarto luta do lado oposto, pelos Estados Unidos. Ford, que às vezes parece um entusiasta do exército, faz aqui um retrato desolador da guerra. Neste filme começa a se tornar evidente uma forte influência do expressionismo alemão na composição visual, fruto da admiração de Ford por Murnau, que marcará boa parte de seus filmes, pelo menos até 1935.

5) Justiça do Amor (Hangman's House, Estados Unidos, 1928)

É estranho ver Victor McLaglen em um papel não cômico, depois de me acostumar com ele nos filmes de Ford dos anos 40 e 50, como a trilogia da cavalaria (“Fort Apache”, “She Wore a Yellow Ribbon”, “Rio Grande”) e “The Quiet Man”, em que faz papéis engraçadíssimos. Antes disso, porém, ele bancava o protagonista galã nos filmes do diretor. Aqui ele faz o papel do herói fordiano que novamente chega para desfazer uma injustiça (o pai da mocinha quer casá-la com um malfeitor rico, apesar de ela ter planos de se casar com outro). Como bom herói fordiano, o personagem de McLaglen se apaixona pela mocinha, mas cumpre seu papel de juntar o casal e ir embora sozinho no fim.